segunda-feira, 14 de julho de 2008

3º Festival de Cinema Latino-americano








Esta semana toda rolou o 3°festival de cinema latino-americano de São Paulo com entrada grátis, filmes muito bons, palestras e ofinas. Nesta edição, o homenageado foi o cineasta argentino Fernando Solanas, que participou do festival com vários filmes.

Como admiradora do cinema alternativo, não poderia deixar de comparecer pelo menos à exibição de um dos 121 filmes espalhados em diferentes espaços da capital. Escolhi o Memorial da América Latina para ver Sur de Fernando Solanas e para minha surpresa conheci o próprio homenageado que fez questão de apresentar o filme e falar um pouco do contexto em que foi produzido aos cinéfilos de plantão. A sala 2 do Auditório Simón Bolívar estava cheia de gente bem educada e inteligente que esperou pacientemente a chegada do cineasta, durante aproximadamente meia hora, sem absolutamente nenhum tumulto ou reclamação. Por um instante imaginei estar na Suiça ou na Bélgica...
Sobre o filme? Excelente.

Fernando Solanas dice ter pensado o filme a partir da letra do tango dos anos quarenta Sur cantado reiteradas vezes pelo sogro de Florel ao longo do filme. Para ele, Sur é um dos mais lindos tangos que já se escreveu. Além disso, no filme, Sur dá nome a uma espécie de sociedade com fama de subversiva da qual participavam os intelectuais do bairro e a um bar no qual tocava o sogro de Florel. Outras alusões a Sur são feitas durante praticamente toda a película.

Tudo ocorre na noite de regresso ao lar de um preso político exilado em seu próprio país pela ditadura argentina. Enquanto caminha pelas ruas de seu bairro, Florel encontra antigos amigos, inclusive um já falecido que vem recebê-lo para contar tudo o que se passou durante sua estadia na prisão. O morto, narrador principal e onisciente da história, usa o recurso do flash back em grande parte do filme para conduzir o espectador pelo passado dos personagens. Em alguns momentos a narrativa apresenta mudanças de focos narrativos e é construída tendo como base as lembranças dos personagens.

El Negro (o morto - narrador) vai esclarecendo o passado ao rapaz e aos espectadores com olhos de quem já morreu e portanto tem sangue frio suficiente, o trocadilho foi inevitável, para relevar pequenos deslizes dos vivos. Para el Negro, a vida é o bem mais importante e deve seguir, embora mudem os atores. A postura madura do narrador vai preparando Florel e os espectadores para a volta a um lar diferente. Um lar transformado porque os participantes daquela família já não são mais os mesmos. "Cinco anos é muito tempo" se exaspera Florel em determinado momento do filme.

Minha opinião sobre Fernando Solanas?

É um narrador genial que parece conhecer bem a literatura de Machado de Assis e os textos dos realistas fantásticos hispânicos mais significativos. Além disso, reconhecemos em sua estética alguns sinais de influência dos trabalhos dos cineastas mais conhecidos da Europa como Fellini e Carlos Saura, embora a narrativa de Fernando Solanas seja, a meu ver, mais fluida.
Pena que acabou. Espero que no ano que vem possa ter disponibilidade para ver mais filmes.





Mais informações sobre eventos, exposições e cursos no Memorial da América Latina: http://www.memorial.sp.gov.br/

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